CÁ TE ESPERO...

Recodando... Jorge de Sena

COMO QUEIRAS, AMOR...


 


Como queiras, Amor, como tu queiras.


Entregue a ti, a tudo me abandono,


seguro e certo, num terror tranquilo.


A tudo quanto espero e quanto temo,


entregue a ti, Amor, eu me dedico.


 


Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,


e nada, não, ainda há por que eu não espere


como de quem ser vida é ter destino.


 


As pequeninas coisas da maldade, a fria


tão tenebrosa divisão do medo


em que os homens se mordem com rosnidos


de malcontente crueldade imunda,


eu sei quanto me aguarda, me deseja,


e sei até quanto ela a mim me atrai.


 


Como queiras, Amor, como tu queiras.


De frágil que és, não poderás salvar-me.


Tua nobreza, essa ternura tépida


quais olhos marejados, carne entreaberta,


será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso


em lábios que se fecham como olhares de raiva.


Não poderás salvar-me, nem salvar-te.


Apenas como queiras ficaremos vivos.


 


Será mais duro que morrer, talvez.


Entregue a ti, porém, eu me dedico


àquele amor por qual fui homem, posse


e uma tão extrema sujeição de tudo.


 


Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.


 


In “Post-Scriptum”


 


Jorge de Sena


(1919-1978)

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