CÁ TE ESPERO...

Recordando... Gonçalves Crespo

A SESTA

 

Na rede, que um negro moroso balança,

qual berço de espumas,

formosa crioula repousa e dormita,

enquanto a mucamba nos ares agita

um leque de plumas.

 

Na rede perpassam as trémulas sombras

dos altos bambus;

e dorme a crioula, de manso embalada,

pendidos os braços da rede nevada

mimosos e nus.

 

Na rede, suspensa dos ramos erguidos,

suspira e sorri

a lânguida moça, cercada de flores;

aos guinchos dá saltos na esteira de cores

felpudo sagui.

 

Na rede, por vezes, agita-se a bela,

talvez murmurando

em sonhos as trovas cadentes, saudosas,

que triste colono por noites formosas

descanta chorando.

 

A rede nos ares do novo flutua,

e a bela a sonhar!

Ao longe nos bosques escuros, cerrados,

de negros cativos os cantos magoados

soluçam no ar.

 

Na rede olorosa... Silêncio! Deixai-a

dormir em descanso!...

Escravo, balança-lhe a rede serena;

mestiça, teu leque de plumas acena

de manso, de manso...

 

O vento que passe tranquilo, de leve,

nas folhas do ingá;

as aves que abafem seu canto sentido;

as rodas do «engenho» não façam ruído,

que dorme a sinhá!

 

In "Miniaturas"

 

Gonçalves Crespo

(1846-1883)

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