CORREDOR
Cem metros à sombra – temperatura
de tantos corpos e almas em rodagem.
neste muro cercado, a maior viagem
sob um céu de pedra escura.
Sombras em fila, espectros talvez,
desplantam ecos da raiz do chão.
Lembram comboios que vêm e vão
sob túneis de pez.
E vêm e vão com pés humanos
ressoando movimentos tardos,
levando fardos, trazendo fardos
das horas sem dias e meses sem anos.
E vêm e vão, sempre, sempre a rodar
na linha dos railes espectrais,
sem descarregadores na gare,
sem guindastes no cais.
E vêm e vão pela via larga
das redes do sonho e da lembrança,
levando a carga, trazendo a carga
de toneladas de esperança.
In “Surrealismo Abjeccionismo”
Antologia organizada por Mário Cesariny
Edições Salamandra
Luís Veiga Leitão **
(1912-1987)
** Pseudónimo de Luís Maria Leitão