CÁ TE ESPERO...

Recodando... Manuel Alegre

O CANTO E AS ARMAS


 


Canto as armas e os homens


as pedras os metais


e as mãos que transformando


se transformam. Eu canto


o remo e a foice. Os símbolos.


Meu sangue é uma guitarra


tangida pelo Tempo.


Canto as armas e as mãos.


E as palavras que foram


areias tempestades


minutos. E o amor.


E também a memória


do cravo e da canela.


E também a quentura


de outras mãos: terra e astros.


E também a tristeza


e a festa. O sangue e as lágrimas.


 


O vinho: puro arder.


E também a viagem:


navegação lavoura


indústria – esse combate.


Procurai-me nas armas


no sílex no barro.


Pedra: meu nome é esse.


E escreve-se no vento.


Canto o carvão e as cinzas


as gazelas e os peixes


na fogueira contínua


das cavernas. E a pele


do tigre sobre a pele


do homem. Eis meu rosto:


está gravado na rocha.


Procurai-me no fóssil


e no carvão. Meu rosto


é cinza e Primavera.


Canto as armas e os homens.


Porque a Tribo me disse:


tu guardarás o fogo.


E por armas me deu


o bronze das palavras.


Meu nome é flecha. E perde-se


no pássaro. Começa


meu canto onde começa


a construção. Pastores


do tempo são meus dedos.


 


Caçadores de coisas


impossíveis. Eu canto


os dedos que transformam


e se transformam. Canto


as marítimas mãos


de Magalhães. As mãos


voadoras de Gagárine.


 


Procurai-me no mar


procurai-me no espaço.


Estou no centro da terra.


Meu nome é cinza. E espalha-se


no vento. Sou adubo


fermentação floresta.


E cintilo nas armas


 


Canto as armas e o Tempo.


As minhas armas o


meu tempo. E desarmado


pergunto à flor pergunto


ao vento: vistes lá


o meu país? E o meu


país está nas palavras.


Porque a Tribo me disse:


tu guardarás o fogo.


E por armas me deu


esta espada este canto.


 


In “O Canto e as Armas”  


Publicações Dom Quixote


 


Manuel Alegre


(N.1932)

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