CÁ TE ESPERO...

Recordando... A. M. Pires Cabral

NORA


I


 


Muito tilintou esta nora.


 


Isso foi no tempo em que musgos,


heras, caracóis, lagartixas e ferrugem


não se tinham ainda sentado em cima dela.


 


Agora já não tilinta.


Secou-se-lhe o tilintar, que por sinal


era o som mais húmido do campo,


o mais quebradiço, mas também


mais apto a fecundar.


 


II


 


Mas não se extraviou nos complicados


trilhos do tempo:


limitou-se a migrar para dentro de mim.


Guardei-o num baú de que só eu tenho a chave


e donde às vezes o tiro para ouvir de novo


os pingos de prata derretida


caindo insistentes sobre a tarde esguia


 


que, aproximando-se do fim,


ficava de repente mais sonora


de pássaros e brisas, e de risos


e ralhos vindos da horta.


 


In “Gaveta do Fundo”


Editora Tinta da China – 2013


 


A. M. Pires Cabral


N. 1941

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