CÁ TE ESPERO...

Recordando... A. M. Pires Cabral

SILÊNCIO


 


Toda a minha vida me escutaste em silêncio.


Tinhas à disposição as vozes enormes


do vento, das águas, do trovão, do pintassilgo -


mas nunca dei por que as usasses comigo.


Envelheci enredado


nas teias dessa mudez.


Ganhei a industriosa astúcia dos velhos


à custa de perder a candura original,


li com cada vez mais desenganada luz


o teu silêncio.


Assim, a princípio achava-o cúmplice,


quente e generoso. Um silêncio


de quem concorda e apoia,


e não acha necessário proclamá-lo.


Com a continuação,


começou-me a parecer o teu silêncio


já só condescendência. O silêncio


de alguém que se dispensa de mostrar


desacordo por simples cortesia.


 


In “As Têmporas da Cinza”


Editora Cotovia  


A. M. Pires Cabral


(N.1941)

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