CÁ TE ESPERO...

Recordando... A. M. Pires Cabral... Poeta Contemporâneo

CASA EM RUÍNAS

O xisto das paredes acolheu

os poucos desejos. O telhado

cortou os grandes frios da geada,

desviou a chuva das enxergas.

Pelos postigos entrou alguma luz.

Rezou-se e morreu-se nessa casa.

Hoje as paredes vão-se aos poucos derruindo:

aproximam-se do chão de que nasceram.

Como se se executasse nela

um antigo memento: quia petra es

et in petram reverteris.

Há muito que o vento derrubou

a derradeira telha. Caíram de podres

as vigas do telhado, e há já alguns invernos

que deram achas para arder no lume.

Quase não há vestígios de postigos –

salvo uma floreira que parece ali

um capricho escarninho.

Cumpriu-se na casa um ciclo.

Hoje não tem serventia,

salvo para alguns animais furtivos

que a ocupam e lhe pedem afinal

as mesmas funções simples

que aquele que a edificou pediu outrora.

Na sua decadência persistente,

a casa mete pena, como todos

os sonhos que algum dia floresceram

e depois se foram esfarelando.

Está visto: as casas não têm

a mesma estouvada vocação

de eternidade

que atormenta os seus donos.

In "Arado"


Cotovia – Lisboa


 


A.M. Pires Cabral


N. 1941


 


 


 

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