CÁ TE ESPERO...

Recordando Afonso Lopes Vieira

 


                   OS BOIS


 


Os bois! Fortes e mansos, os boizinhos,


- leões com corações de passarinhos!


 


Os bois! Os grandes bois, esses gigantes,


tão amigos, tão úteis, tão possantes!


 


Vede os bois a puxar, pelas estradas,


aquelas pesadíssimas carradas.


 


O corpo deles, com o esforço, freme,


e o carro geme, longamente geme...


 


E à noite, pela estrada tão sòzinha,


o carro geme, geme, e lá caminha...


 


E parece, pela noite envolta em treva,


que é o carro a chorar por quem o leva.


 


Vede o boi a puxar à velha nora,


que parece também que chora, chora...


 


A nora chora, e o boi, cansadamente,


anda à roda, anda à roda, longamente...


 


E parece pela tarde erma que expira,


que é a água a chorar por quem a tira.


 


Mas vede os bois, também, nessa alegria


de trabalhar na terra à luz do dia!


 


Vede os bois a puxar ao arado, agora


que o lavrador conduz pelo campo fora!


 


Eis um canto de amor no ar se espalha:


- é a terra a cantar por quem trabalha!


 


O arado rasga a terra, e os bois, passando,


com os seus olhos a vão abençoando.


Sem as suas fadigas e canseiras,


não teriam florido as sementeiras!


 


Sem a sua força, sem a sua dor,


não estava rindo a terra toda em flor!...


 


E, por onde os bois lavraram,


as fontes frescas brotaram,


as árvores verdejaram,


os passarinhos cantaram,


as flores floriram,


os campos reverdeceram,


os pães cresceram


e os homens sorriram!...


 


 


Afonso Lopes Vieira


1878-1946

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