CÁ TE ESPERO...

Recordando... Albano Martins

ACONTECIMENTO


 


Tu choravas e eu ia apagando


com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas


– riscos na areia mole e quente do teu rosto.


Choravas como quem se procura.


E eu descobria mundos, inventava nomes,


enquanto ia espremendo com as mãos


o meu sangue todo no teu sangue.


 


Não sei se o mundo existia e nós existíamos, realmente.


Sei que tudo estava suspenso


esperando não sei que grave acontecimento


e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos meus sentidos.


Só a minha boca era uma abelha inquieta


percorrendo e picando o teu corpo de beijos.


 


Depois só dei pela manhã,


a manhã atrevida,


entrando devagar, muito devagar e acordando-me.


Desviei os meus olhos para ti:


ao longo do teu corpo morriam as estrelas.


A noite partira. E, lentamente,


o sol rompeu no céu da tua boca.


 


In “ÁRVORE ”


Folhas de Poesia


Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa,


José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho


2.º Fascículo - Inverno de 1951


Pág. 98


 


Albano Martins


(1930-2018)

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