CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alberto Caeiro

A GUERRA QUE AFLIGE...


 


A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,


É o tipo perfeito do erro da filosofia.


 


A guerra, como tudo humano, quer alterar.


Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito


E alterar depressa.


 


Mas a guerra inflige a morte.


E a morte é o desprezo do universo por nós.


Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.


Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.


 


Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.


Tudo é orgulho e inconsciência.


Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.


Pára o coração e o comandante dos esquadrões


Regressa aos bocados o universo exterior.


A química directa da Natureza


Não deixa lugar vago para o pensamento.


 


A humanidade é uma revolta de escravos.


A humanidade é um governo usurpado pelo povo.


Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.


 


Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!


Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!


Paz à essência inteiramente exterior do Universo!


 


“Poemas Inconjuntos”


 


In “Poesia”


Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith - 2001


Assírio & Alvim


 


Alberto Caeiro


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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