CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alberto Caeiro

ONTEM O PREGADOR DE VERDADES DELE


 


Ontem o pregador de verdades dele


Falou outra vez comigo.


Falou do sofrimento das classes que trabalham


(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).


Falou da injustiça de uns terem dinheiro,


E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,


Ou se é só fome da sobremesa alheia.


Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.


 


Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!


Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,


E não se cura de fora,


Porque sofrer não é ter falta de tinta


Ou o caixote não ter aros de ferro!


 


Haver injustiça é como haver morte.


Eu nunca daria um passo para alterar


Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.


Mil passos que desse para isso


Eram só mil passos.


Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,


E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.


 


Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.


Para qual fui injusto — eu, que as vou comer a ambas?


 


[Poemas Inconjuntos]


 


In “Poesia”


Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith


Assírio & Alvim


 


Alberto Caeiro


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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