CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alberto Caeiro

QUANDO EU NÃO TE TINHA


 


Quando eu não te tinha


Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...


Agora amo a Natureza


Como um monge calmo à Virgem Maria,


Religiosamente, a meu modo, como dantes,


Mas de outra maneira mais comovida e próxima…


Vejo melhor os rios quando vou contigo


Pelos campos até à beira dos rios;


Sentado a teu lado reparando nas nuvens


Reparo nelas melhor—


Tu não me tiraste a Natureza...


Tu mudaste a Natureza...


Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,


Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,


Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,


Por tu me escolheres para te ter e te amar,


Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente


Sobre todas as coisas.


Não me arrependo do que fui outrora


Porque ainda o sou.


 


6-7-1914


 


“O Pastor Amoroso” 


 


In “Poemas de Alberto Caeiro”


(Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor)


Ática, 1946 (10ª ed. 1993)


 


Alberto Caeiro


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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