CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

XLVIII – DA MAIS ALTA JANELA DA MINHA CASA


 


Da mais alta janela da minha casa 

Com um lenço branco digo adeus

Aos meus versos que partem para a humanidade.


 


E não estou alegre nem triste.    


Esse é o destino dos versos.

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos

Porque não posso fazer o contrário

Como a flor não pode esconder a cor,

Nem o rio esconder que corre,

Nem a árvore esconder que dá fruto.


 


Ei-los que vão já longe como que na diligência 

E eu sem querer sinto pena

Como uma dor no corpo.


 


Quem sabe quem os terá?

Quem sabe a que mãos irão?


 


Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.  


Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.   

Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.   

Submeto-me e sinto-me quase alegre,


Quase alegre como quem se cansa de estar triste.


 


Ide, ide de mim!

Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.

Murcha a flor e o seu pó dura sempre.


Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.


 


Passo e fico, como o Universo.


 


 


 


In "Poemas de Alberto Caeiro – O Guardador de Rebanhos


– Fernando Pessoa – Antologia Poética"


3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses


Editora Ulisses


 


 


Alberto Caeiro/Fernando Pessoa


1889 – 1915


 


 


 

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