CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alberto de Oliveira

O MAR AGITA-SE, COMO UM ALUCINADO


 


O Mar agita-se, como um alucinado:


A sua espuma aflui, baba da sua Dor...


Posto o escafandro, com um passo cadenciado,


Desce ao fundo do Oceano algum mergulhador.


 


Dá-lhe um aspecto estranho a campânula imensa:


Lembra um bizarro Deus de algum pagode indiano:


Na cólera do Mar, pesa a sua Indiferença


Que o torna superior, e faz mesquinho o Oceano!


 


E em vão as ondas se lhe enroscam à cabeça:


Ele desce orgulhoso, impassível, sem pressa,


Com suprema altivez, com ironias calmas:


 


Assim devemos nós, Poetas, no Mundo entrar,


Sem nos deixarmos absorver por esse Mar


– Pois a Arte é, para nós, o escafandro das Almas!


 


In "Bíblia do Sonho - Pores-de-Sol"


 


Alberto de Oliveira


(1873-1940)

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