CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alberto de Serpa

MAR MORTO


 


A noite caiu sobre o cais, sobre o mar, sobre mim...


As ondas fracas, contra o molhe, são vozes calmas de afogados.


O luar marca uma estrada clara e macia nas águas,


mas os barcos que saem podem procurar mais noite,


e com as suas luzes vão pôr mais estrelas além ...


O vento foi para outros cais levar o medo,


e as mulheres, que vêm dizer adeus e cantar,


hoje sabem canções com mais esperança,


canções mais fortes que a ressaca,


canções sem pausas onde passe uma sombra da morte...


Velhos marítimos — a terra é já a sua terra —


olham o mar mais distante e têm maior saudade...


Pára o rumor duns remos...


Não vão mais às estrelas as canções com noite, amor e morte...


Penso em todos os que foram e andam no mar,


em todos os que ficam e andam no mar também ...


E a luz do farol, lá longe, diz talvez...


 


 


In “Pregão” – 1952


Edições Saber


 


Alberto de Serpa


1906 – 1992  


 

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