CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alberto Pereira

PRESÍDIO


 


Tenho séculos submersos no teu corpo.


Apalpo a trovoada despida no olhar,


há aves que voam rente ao tempo cruel


relampejando geadas inesperadas.


Há abismos insurrectos


a transbordar champanhe nocturno.


Bebo o sorriso afogado


em luminosos cálices de trevas,


escuto chicotes ungindo labaredas


nos canais sombrios da alma.


 


 


Tenho séculos submersos no teu corpo.


Não sei como selar a decepção


que arde nos sulcos do desespero.


Colocaste-me grades na boca,


é insuportável o sangue descalço


que dança nuvens na garganta.


Trouxeste nos gestos ogivas lancinantes


a transplantar milénios de abandono.


Desmorono-me em silêncio


perseguido pelo assédio atómico


que flutua no encanto.


 


Anoitece em mim,


surtos desolados


escavam neblina na eternidade,


tudo grita o fim.


 


 


In "O áspero hálito do amanhã"


Edium Editores


 


Alberto Pereira


N. 1970

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