CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alexander Search

EPIGRAMAS

 

I

 

Com que então murmuram sobre nós —

Falam de ti e falam de mim?

Mas então murmuram sobre nós?

Demos-lhes razão p’ra que seja assim!

 

II

 

A todos aqueles que dizem

Que morreram a honra e o bem,

Muitas coisas podiam ser ditas;

Uma delas, que eles mentem.

 

III

 

Se o valor de um guinéu está só em sê-lo,

Então sobre isto se pode dizer:

O valor de um guinéu cunhado em chumbo

Só entre os homens se pode ver.

 

IV

 

Tu, que tantas vezes queres ser

Grosseiro e mal-educado, vens dizer

Que nem de matar mosca sou capaz...

Ora bolas, Zé: Zás!

 

V

 

Qual é a coisa de fama sem igual

No mundo? Só isto: uma bula papal.

 

VI

 

Pio, em sua bula, com rancor piedoso

Faz com que padres e gente enviesada

Nos espiem. Embora Pio seja piedoso,

Sua bula (se aquilo é bula), uma calinada.

 

VII

 

Pio Décimo, tua bula ou carta —

O que quer que seja, li com atenção,

Embora ela seja bastante chata;

E p’ra ser sincero e não enganar

O que digo resume a impressão

Que, depois de lida, a bula me dá:

Será que acreditas no que ali está?

 

VIII

 

Ele pediu-me, meio encolhido,

Que lhe esboçasse o retrato numa penada;

Está pronto: casaco do último grito

E gravata encarnada.

 

IX

 

Dizem que a Roma vai dar toda a via

E, mais ainda, que isto é correcto;

Mas, claro está, que a maioria

Irá lá dar por caminho incerto.

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

Alexander Search

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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