CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alexander Search

HORROR


 


Em minha alma, na sua escuridão,


Tão escura como a alma em cada ser,


Por bênção de sua eterna maldição


Lampeja qual vampiro sem corpo tido


Em rara plenitude além saber,


Do universo o íntimo sentido.


 


E tão cobarde é meu pensamento,


Toda a vida e tudo em mim absorvendo


E me tomando, mais fel do que o fel,


Que eu tenho medo de abrir os meus olhos


E a mente a uma surpresa horrível,


E sinto meu ser quase em supressão


Num horror além da Imaginação.


 


Mais do que a mais cobarde das feras


Diante do raio em que o céu se fen


Mais do que o ébrio na sua aflição


Que tem visões que o temor transcende,


Mais do que o medo pode conceber,


Mais que a loucura pode fazer crer,


Mais do que o nem sequer imaginado,


O mistério de tudo, o seu sentido


Quando em mim, em plenitude vislumbrado,


Faz aterrar meu ser enlouquecido.


 


Não fales — não há palavra a ser dita —


Não, nem a sombra dessa sensação,


Da corda da sanidade partida


Em mim, na angústia daquele momento


E na intensidade da negação;


Não penses, não é capaz o pensar


De um tal horror poder expressar.


 


A mínima coisa fica terrível


E sublime o ínfimo pensamento —


Tudo no mundo fica mais horrível


Do que o sentido da alma do tempo,


Do que o medo da morte profunda,


Do que o remorso em que o crime se afunda.


 


É como que trazer o conhecimento


De que o mistério é só um jogo tolo.


Contudo se assim o viessem trazer,


Morto estaria o meu pensamento


E morto, como tudo, todo o meu ser:


É isto o que os homens sabem nomear,


Olhando o rosto de Deus, grosseiramente.


E esse sentir pode mais que mutilar


O espírito, mais que embrutecer;


Ele mataria total e prontamente,


Com um susto nem no inferno provado,


Mais do que do terror é conhecido,


Mais do que do medo é imaginado.


 


1907


 


In “Poesia”


Edição e tradução de Luísa Freire


Assírio & Alvim – 1999


 


Alexander Search


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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