CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alexander Search

EPITÁFIO  


 


Dos poetas do mundo ora aqui jaz


O que se pensou como o melhor deles;


Na vida não teve alegria ou paz.


 


Muitas canções de loucura encheu,


E quando quer que ele tenha morrido


Foi já de mais o tempo que viveu.


 


Num egotismo viveu sem razão,


Na sua alma em tumulto e desordem


Pensar e sentir, perpétua cisão.


 


Um inimigo em cada coisa tida


E, sem coragem, seu papel cumpriu


No penar infindável desta vida.


 


Da dor e do medo um escravo certo,


E pensamentos incoerentes teve


E desejos da loucura perto.


 


Por artes do mal, aqueles que amou


Tratou pior do que seus inimigos;


Mas em si o pior inimigo achou.


 


Só de si mesmo se fez seu cantar,


Sempre incapaz de modesto ser,


Fechado em seu louco imaginar.


 


Todo o seu penar sem esforço ou valia,


Vazios de sentido os receios e dores


Que ignóbeis foram na maioria.


 


Vil e sem valor assim seu pesar;


Embora em versos mais amargos que ódio


A amarga alma não pôde expressar.


 


Embora capaz de chorar de ternura,


Era, contudo, miserável e mau —


Mas ninguém pareceu ver nele a loucura.


 


Que mente saudável não vá poluir


Sua campa; mas, por condizentes,


Traidor e prostituta poderão ir;


 


Ébrio e dissoluto podem passar


Por ali, depressa, não vão supor


Talvez que o prazer é apenas ar.


 


Toda a fraca e execrável mente


Que, em corrupção, torturou o homem


Aqui terá seu mestre consciente,


 


Consciente, pois nele pôde dizer


Que loucura e mal foram o que foram,


Mas que de nenhum se quis desfazer.


 


Passai pois, ali, quem puder chorar;


Que a podridão trabalhe enquanto, forte,


O vento as folhas mortas arrastar.


 


Ao seu irmão na terra a dormitar


Que nem sequer em imaginação


O nome de Deus venha perturbar.


 


Que tenha p'ra sempre a paz conseguido


Longe dos olhos e bocas dos homens


E do que deles o fez dividido.


 


Ele foi um ser por Deus trabalhado


E ao pecado já de ter vivido


Juntou ele o crime de ter pensado.


 


1907


 


In “Poesia”


Edição e tradução de Luísa Freire


Assírio & Alvim – 1999


 


Alexander Search


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

0