CÁ TE ESPERO...

Recordando... Alexander Search

HOMENS DO PRESENTE


 


Homens do presente, nada no passado,


Antes de serdes as coisas que vemos,


Quem podia ter sabido ou pensado


Que seríeis hoje aquilo que temos?


Ah, passantes pela mesma via,


Quem pôde pensar-vos antes deste dia?


 


Homens do presente e pó de amanhã,


Ao passar dos anos aonde ireis ter?


Que rude mudez ou ânsia em pressa vã


Irá registar vossa dor e prazer?


Ondas ou cristas do mar desta vida


Quem vos pensará passado este dia?


 


Só o génio pode o fogo atiçar


Que na natureza em vós abrigais;


Só o génio pode a lira tocar


E erguer vosso nome aos céus dos mortais;


O génio pode a morte romper


E o nada de ontem num tudo verter.


 


Mas a virtude, como os choros humanos,


Pelos areais depressa bebida,


Mergulha no pó dos passados anos


E nem sabereis onde está escondida.


Que o génio, então, possa ser laureado;


Que o pó de amanhã seja eternizado


 


1904


 


In “Poesia”


Edição e tradução de Luísa Freire


Assírio & Alvim - 1999


 


Alexander Search


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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