CÁ TE ESPERO...

Recordando... Almeida Garrett

NÃO TE AMO


 


Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
         E eu n´alma – tenho calma,
         A calma do jazigo.
         Ai!, não te amo, não.


 


Não te amo, quero-te: o amor é vida.
         E a vida – nem sentida
         A trago eu já comigo.
         Ai!, não te amo, não!


 


Ai! não te amo, não; e só te quero
         De um querer bruto e fero
         Que o sangue me devora,
         Não chega ao coração.


 


Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
         Quem ama a aziaga estrela
         Que lhe luz na má hora
         Da sua perdição?


 


E quero-te, e não te amo, que é forçado.
         De mau feitiço azado
         Este indigno furor.
         Mas oh! Não te amo, não.


 


E infame sou, porque te quero; e tanto
         Que de mim tenho espanto,
         De ti medo e terror…
         Mas amar!… não te amo, não.


 


 


 In “Folhas Caídas”


 


Almeida Garrett


1799 - 1854                                       

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