CÁ TE ESPERO...

Recordando... Almeida Garrett

O MAR


 


III


 


Vae-se acclarando agora o firmamento,


E azulando-se o mar co’a luz nascente


Do primeiro, tenuissimo crepusculo.


Eil-a que assoma, despontando apenas


C’os roseos dedos, a formosa aurora


Vem brandamente a desparzir no polo


As roxas, lindas flores, rociadas


Do matutino, bemfazejo orvalho,


Talvez por mãos dos zephyros colhidas


Nos jardins Ulysseos, nas brandas veigas


Ao remanso do placido Mondego...


Talvez ontem ainda a minha amada


Lhe respirasse o lisongeiro aroma...


Oh! recolhei-as, amorosas filhas


Do placido Nereu, ide nos collos


Dos Tritões namorados, ide ao Tejo


E ao manso rio que ingrossaram prantos


Da malfadada Ignez, ide, levae-lh’as


Aos do meu coração, o amigo, a amante:


Dizei-lhes que eu, eu sou que vos invio.


Que depóz vós o coração me foge,


E que so vivo nas memorias delles.


Ide ligeiras, sim, correi, à nynphas...


Mas oh! do patrio meu Douro sombrio


Ai! não, não vades demandar as praias...


Amargosa e cruel me veda a sorte


Recordal-o sem dor... Ferreas angústias


Lá misero soffri... lá n’este peito


Verteu perversa mão do deus dos males


Quanto fel espremeu do peito ás furias,


Quanto veneno lhe escumou dos labios.


A ingrata... Ah! nunca mais me lembre o Douro:


Suas riquezas para si que as guarde.


Suas aguas turvas impetuoso as role


Por entre as calvas penedidas brutas


Que a lobrega torrente lhe comprimem:


Va, que a mim saudades não m’as deixa:


So tormentos me deu, não posso amal-o…


 


In “Flores sem Fructo” - Livro Primeiro


Imprensa Nacional – 1845


 


Almeida Garrett


(1799 - 1854)


 


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