CÁ TE ESPERO...

Recordando... Álvaro de Campos

CRUZ NA PORTA DA TABACARIA!


 


Cruz na porta da tabacaria!


Quem morreu? O próprio Alves? Dou


Ao diabo o bem-estar que trazia.


Desde ontem a cidade mudou.


 


Quem era? Ora, era quem eu via.


Todos os dias o via. Estou


Agora sem essa monotonia.


Desde ontem a cidade mudou.


 


Ele era o dono da tabacaria.


Um ponto de referência de quem sou.


Eu passava ali de noite e de dia.


Desde ontem a cidade mudou.


 


Meu coração tem pouca alegria,


E isto diz que é morte aquilo onde estou.


Horror fechado da tabacaria!


Desde ontem a cidade mudou.


 


Mas ao menos a ele alguém o via,


Ele era fixo, eu, o que vou,


Se morrer, não falto, e ninguém diria:


Desde ontem a cidade mudou.


 


(14-10-1930)


 


Poesias de Álvaro Campos


 


In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição


Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses


Editora Ulisses


 


Álvaro de Campos/Fernando Pessoa


1890 – 1935

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