CÁ TE ESPERO...

Recordando... Álvaro de Campos

VENDI-ME DE GRAÇA AOS CASUAIS DO ENCONTRO


      


Vendi-me de graça aos casuais do encontro.


Amei onde achei, um pouco por esquecimento.


Fui saltando de intervalo em intervalo


E assim cheguei a onde cheguei na vida.


Hoje, recordando o passado


Não encontro nele senão quem não Fui...


A criança inconsciente na casa que cessaria,


A criança maior errante na casa das tias já mortas,


O adolescente inconsciente ao cuidado do primo padre tratado por tio,


O adolescente maior enviado para o estrangeiro (mania do tutor novo).


O jovem inconsciente estudando na Escócia, estudando na Escócia...


O jovem inconsciente já homem cansado de estudar na Escócia.


O homem inconsciente tão diverso e tão estúpido de depois...


Não tendo nada de comum com o que foi,


Não tendo nada de igual com o que penso,


Não tendo nada de comum com o que poderia ter sido.


Eu...


Vendi-me de graça e deram-me feijões por troco


Os feijões dos jogos de mesa da minha infância varrida.


 


19-7-1930


 


In “Álvaro de Campos - Livro de Versos” 


Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes


Editora Estampa -1993


 


Álvaro de Campos


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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