CÁ TE ESPERO...

Recordando... Álvaro de Campos  

REGRESSO AO LAR


 


Há quanto tempo não escrevo um soneto


Mas não importa: escrevo este agora.


Sonetos são infância e, nesta hora.


A minha infância é só um ponto preto


 


Que num imóbil e fútil trajecto


Do comboio que sou me deita fora


E o soneto é como alguém que mora


Há dois dias em tudo que projecto.


 


Graças a Deus, ainda sei que há


Quatorze linhas a cumprir iguais


Para a gente saber onde é que está...


 


Mas onde a gente está, ou eu, não sei...


Não quero saber mais de nada mais


E berdamerda para o que saberei.


 


3/2/1935


 


In “Álvaro de Campos - Livro de Versos” 


Estampa -1993


Pág. 198


 


Álvaro de Campos


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

0