CÁ TE ESPERO...

Recordando... A.M. Pires Cabral

AS PROSTITUTAS


 


Naquele tempo,


elas desciam à vila, as prostitutas –


a única saída,


exactíssima resposta para a nossa


angústia seminal acumulada.


Vinham de Vale da Porca, ou outra


terra assim pasmada.


Traziam na cabeça lenços garridos,


na carteira de mão a triste história:


a sedução primária, a miséria espessa,


mas jamais o vício mercenário.


Nas eiras recebiam as nossas águas,


de permeio plantados como reis.


Procuravam lisonjeiras acertar


seu êxtase fingido com o nosso.


Beijavam-nos, diziam: tão novinho!


Suportavam-nos insultos e arremessos.


Com a mão experiente (mas não habituada)


guiavam-nos na bela, impreterível,


urgente aprendizagem,


concediam-nos crédito e carinho –


as tão castas mulheres,


as prostitutas.


 


Algures a Nordeste (1974)


 


In “Artes Marginais”


Antologia poética


Guimarães Editores -1998


 


A.M. Pires Cabral


(N.1941)

0