CÁ TE ESPERO...

Recordando... A.M. Pires Cabral

ARTE DE GRITAR


 


Quisera dizer coisas


que ninguém tivesse dito antes de mim.


 


Deixar uma pegada sobre a areia intacta,


não sobre outras pegadas que já houvesse lá.


 


Mas cheguei tarde; os que me precederam


no exercício desta dura arte de gritar


 


amavam a minúcia, a completude,


nunca deixavam uma tarefa a meio.


 


Disseram tudo. Deixaram só migalhas susceptíveis


de glosas rasteiras, para eu me entreter


 


como uma criança pobre brinca com destroços


de brinquedos recuperados do lixo.


 


E eu digo essas migalhas como quem


escreve a terra em laudas rasuradas.


 


E escrevê-las-ei mesmo quando


não tenha língua já para as dizer.


 


(Os poetas entendem-me estes mansos


trocadilhos. Os outros, não importa.)


 


In “Gaveta do Fundo”


Editora Tinta da China


A.M. Pires Cabral


(N.1941)

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