CÁ TE ESPERO...

Recordando... Ana Luísa Amaral

TENTO EMPURRAR-TE DE CIMA DO POEMA 


 


Tento empurrar-te de cima do poema


para não o estragar na emoção de ti:


olhos semi-cerrados, em precauções de tempo


a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.


 


Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:


tudo coisas de ti, mas coisas de partir…


E o meu alarme nasce: e se morreste aí,


no meio de chão sem texto que é ausente de ti?


 


E se já não respiras? Se eu não te vejo mais


por te querer empurrar, lírica de emoção?


E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?


E se tu não estiveres onde o poema está?


 


Faço eroticamente respiração contigo:


primeiro um advérbio, depois um adjectivo,


depois um verso todo em emoção e juras.


E termino contigo em cima do poema,


presente indicativo, artigos às escuras.


 


In “Coisas de Partir”


Fora do Texto


 


Ana Luísa Amaral


(N.1956)

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