CÁ TE ESPERO...

Recordando... Ana Luísa Amaral... Poetisa Contemporânea

UM CÉU E NADA MAIS


 


Um céu e nada mais – que só um temos,


como neste sistema: só um sol.


Mas luzes a fingir, dependuradas


em abóbada azul - como de tecto.


E o seu número tal, que deslumbrados


eram os teus olhos, se tas mostrasse,


amor, tão ribalta azul, como de


circo, e dança então comigo no


trapézio, poema em alto risco,


e um levíssimo toque de mistério.


Pega nas lantejoulas a fingir


de sóis mal descobertos e lança


agora a âncora maior sobre o meu


coração. Que não te assuste o som


desse trovão que ainda agora ouviste,


era de deus a sua voz, ou mito,


era de um anjo por demais caído.


Mas, de verdade: natural fenómeno


a invadir-te as veias e o cérebro,


tão frágil como álcool, tão de


potente e liso como álcool


implodindo do céu e das estrelas,


imensas a fingir e penduradas


sobre abóbada azul. Se te mostrasse,


amor, a cor do pesadelo que por


aqui passou agora mesmo, um céu


e nada mais - que nada temos,


que não seja esta angústia de


mortais (e a maldição da rima,


já agora, a invadir poema em alto


risco), e a dança no trapézio


proibido, sem rede, deus, ou lei,


nem música de dança, nem sequer


inocência de criança, amor,


nem inocência. Um céu e nada mais.


 


 


In "Às Vezes o Paraíso"


Quetzal Editores


 


Ana Luísa Amaral


N. 1956


 


 

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