SAUDADE MINHA
Minha saudade as cousas transfigura
num estranho delírio semelhante
ao desse eterno cavaleiro-andante
paladino do sonho e da loucura:
minha saudade é fonte que murmura
e em seu cantar humilde e marulhante
mata a sede que abrasa o caminhante
só de o embalar na líquida ternura...
Minha saudade os mundos alumia
os mortos ressuscita e é um sol-nascente
dourando ainda as trevas da agonia;
minha saudade é a força misteriosa
que torna cada cousa em mim presente
e a minha dor presente em cada cousa.
MORS – AMOR (1928)
In “Poesia Completa” – 2.ª edição
(Biblioteca de Autores Portugueses)
Imprensa Nacional – Casa da Moeda
Anrique Paço D’Arcos*
1906 – 1993
* (Henrique Belford Correia da Silva – Conde de Paço D’Arcos)