CÁ TE ESPERO...

Recordando... Antero Quental

OS CATIVOS


 


Encostados às grades da prisão,


Olham o céu os pálidos cativos.


Já com raios oblíquos, fugitivos,


Despede o sol um ultimo clarão.


 


Entre sombras, ao longe, vagamente,


Morrem as vozes na extensão saudosa.


Cai do espaço, pesada, silenciosa,


A tristeza das cousas, lentamente.


 


E os cativos suspiram. Bandos de aves


Passam velozes, passam apressados,


Como absortos em íntimos cuidados,


Como absortos em pensamentos graves.


 


E dizem os cativos: Na amplidão


Jamais se extingue a eterna claridade...


A ave tem o vôo e a liberdade...


O homem tem os muros da prisão!


 


Aonde ides? qual é a vossa jornada?


À luz? à aurora? à imensidade? aonde?


– Porém o bando passa e mal responde:


A noite, à escuridão, ao abismo, ao nada! –


 


E os cativos suspiram. Surge o vento,


Surge e perpassa esquivo e inquieto,


Como quem traz algum pezar secreto,


Como quem sofre e cala algum tormento...


 


E dizem os cativos: Que tristezas,


Que segredos antigos, que desditas,


Caminheiro de estradas infinitas,


Te levam a gemer pelas devezas?


 


Tu que procuras? que visão sagrada


Te acena da solidão onde se esconde?


– Porém o vento passa e só responde:


A noite, a escuridão, o abismo, o nada! –


 


E os cativos suspiram novamente.


Como antigos pezares mal extintos,


Como vagos desejos indistintos,


Surgem do escuro os astros, lentamente...


 


E fitam-se, em silêncio indecifrável,


Contemplam-se de longe, misteriosos,


Como quem tem segredos dolorosos,


Como quem ama e vive inconsolável...


 


E dizem os cativos: Que problemas


Eternos, primitivos vos atraem?


Que luz fitais no centro donde saem


A flux, em jorro, as intuições supremas?


 


Por que esperais? nessa amplidão sagrada


Que soluções esplendidas se escondem?


– Porém os astros tristes só respondem:


A noite, a escuridão, o abismo, o nada! –


 


Assim a noite passa. Rumorosos


Sussurram os pinhais meditativos.


Encostados às grades, os cativos


Olham o céu e choram silenciosos.


 


(mantém a grafia original)


 


In “Sonetos”


Colecção – Autores Portugueses de Ontem


Estante Editora – Maio de 1989


 


Antero Quental


(1842-1891)

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