CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Aleixo

QUADRAS II


 


Peço às altas competências


Perdão, porque mal sei ler,


P'ra aquelas deficiências


Que os meus versos possam ter.


………………………….


Quando não tenhas à mão


Outro livro mais distinto,


Lê estes versos que são


Filhos das mágoas que sinto.


………………………….


Julgam-me mal sabedor;


E é tão grande o meu saber


Que desconheço o valor


Das quadras que sei fazer!


………………………….


Compreendo que envelheci


E que já daqui não passo,


Como não passam daqui


As pobres quadras que faço.


………………………….


Tal qual me sucede a mim;


Sem ter vulto, sem ter voz,


Vive qualquer coisa em nós


Que manda fazer assim.


………………………….


Vai-se uma luz, outra existe,


Nova aurora nos seduz;


Deve ser muito mais triste


A gente deixar a luz.


………………………….


Se pedir, peço cantando,


Sou mais atendido assim;


Porque, se pedir chorando,


Ninguém tem pena de mim.


…………………………..


Meu aspecto te enganou;


O que a gente é não se vê;


Pergunta a outrem quem sou,


Pois o que sou nem eu sei.


………………………….


Quem me vê dirá: não presta,


Nem mesmo quando lhe fale,


Porque ninguém traz na testa


O selo de quanto vale


………………………….


 


In “Este Livro Que Vos Deixo…”


Volume I – Editorial Notícias


 


António Aleixo


1899 – 1949 

0