CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Barahona da Fonseca

METAMORFOSE


 


Mulher de corpo de lezíria


de pálpebras iluminadas


minha caixa de vitrais


cheia de fogos-fátuos


minha fonte de pedrarias


meus cisne


Mulher no inferno cercada de antílopes fumegantes


estátua de ferro em brasa


até ao joelho na lava


Mulher minha loucura bordada a tinta de escrever


meu túnel de humidade minha cratera de cio


nome de roseira


nome de carpa


nome de canoa oceânica minha constelação


minha estrela sombria cor de cereja


caída do outono para a boca minha


Mulher


meu riso de água potável minha cascata de leite


minha gaivota de camisola branca minha febre


meu violino com as pupilas em chamas


Mulher à chuva envolta num lençol de vinho


apanhando um a um


os cães de patas trémulas e latidos de ave


os cães torrões de açúcar de língua de rubi


os cães de olhos de bondade


no alcatrão junto dos pés de trigo de Gina


minha colher de pétalas na chávena de búzio


meu substantivo meu advérbio de café


numa plantação de tabaco


meu pântano de arroz transparente


minha vela de estai no Cabo Horn


minha Mulher de tentáculos minha tainha


minha savana meu plágio de Vénus


na boca um do outro é que morremos


meu Amor


minha porta de neve com fechaduras quentes


minha cabra de safira


minha Mãe


 


Impressões Digitais – Edição do autor


 


In “O Surrealismo na Poesia Portuguesa”


Org., pref. e notas de Natália Correia


Publicações Europa-América, 1973


 


António Barahona da Fonseca


N. 1939

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