CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Botto

PASSEI O DIA OUVINDO O QUE O MAR DIZIA


 


Eu ontem passei o dia


Ouvindo o que o mar dizia.


Chorámos, rimos, cantámos.


Falou-me do seu destino,


Do seu fado...


 


Depois, para se alegrar,


Ergueu-se, e bailando, e rindo,


Pôs-se a cantar


Um canto molhado e lindo.


 


O seu hálito perfuma,


E o seu perfume faz mal!


Deserto de águas sem fim.


Ó sepultura da minha raça


Quando me guardas a mim?...


 


Ele afastou-se calado;


Eu afastei-me mais triste,


Mais doente, mais cansado...


Ao longe o Sol na agonia


De roxo as águas tingia.


 


«Voz do mar, misteriosa;


Voz do amor e da verdade!


- Ó voz moribunda e doce


Da minha grande Saudade!


Voz amarga de quem fica,


Trémula voz de quem parte...»


.........................................


 


E os poetas a cantar


São ecos da voz do mar!


 


In “As Canções de António Botto”


Ed. Presença – 1980


 


António Botto


(1897-1959)

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