CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Botto

NÃO ME CHAMEM PELO NOME


 


Não me chamem pelo nome


Que me deram ao nascer;


Sou como a folha caída


Que não chegou a viver.


 


Se eu sem riquezas nasci,


Cheguei a sonhar com elas


Na esperança de ser alguém;


Mas bem depressa deixei


A tortura de quem quer


Conquistar o que não tem.


Os nervos mortos, na terra


dos meus planos iludidos,


Mentiram à própria fome!


Por isso nesta indiferença


Peço apenas: - e é tão pouco!,


Não me chamem pelo nome.


 


Sou como a folha caída


Pisada por quem passeia


Alheio à luz e à beleza;


E de todas as venturas,


Só me encontro nos silêncios


Que tem a minha tristeza.


Perdi-me no sofrimento


Que nos dão as aparências


Que julgamos entender...


Da vida não quero nada;


E não me falem no nome


Que me deram ao nascer.


 


Sou como a flor esquecida


Nos canteiros da ilusão


De um jardineiro traidor,


Sou como fonte discreta


Entre folhagens cantando


Tristes cantigas de amor;


Ao fim de tanta vileza


Já não me posso iludir


Com as promessas da vida!


Tudo em mim sabe a derrota,


E até da morte duvido


- Sou como a folha caída.


 


Sou como tudo que passa


No giro do pensamento


De uma criança a brincar;


E os meus mais débeis desejos


Morrem aos ais na lembrança


De quem se esqueceu de amar;


Nada no mundo me prende;


Nem a saudade de um beijo


Num momento de prazer!,


- Pobre corpo sem destino,


Renúncia firme de artista


Que não chegou a viver.


 


In “As Canções de António Botto”


Edições Ática


 


António Botto


(1897-1959)

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