CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Botto

PALAVRAS DE UM AVESTRUZ TODO GRIS


 


Arrancam-me as penas


E eu sofro sem dizer nada:


- Sou ave


Bem educada.


 


E, se quisesse,


Podia


Morder-lhes as mãos morenas,


A esses


Que sem piedade


Me roubam as penas que me cobrem;


 


E, no entanto,


Sem o mais breve gemido,


O meu corpo


Vai ficando


Desguarnecido ...


 


E elas,


Aquelas


Que se enfeitam, doidamente,


Com estas penas formosas


- Que são minhas!


Passam por mim, desdenhosas,


Em gargalhadas mesquinhas.


 


Sim; eu sofro sem dizer nada:


- Sou ave


Bem educada.


Mesmo que fosse pequena


E eu te visse pobre ou nua


- Ninguém ama a sua Pátria por ser grande,


Mas sim por ser sua!


 


In “Canções e Outros Poemas”


Quasi Edições


 


António Botto


(1897-1959)

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