CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Cabral

ROMANCE DO RIO DOURO


 


Rio Douro, rio Douro,


que vais tu dizer ao mar


com cem palavras ferindo


um ovo que não se abre?


Teus dedos de névoa crescem,


desfibram-se pelo vale;


e uma rosa angustiada,


na areia do areal.


Rio Douro, rosa de água,


que tens tu para contar?


Rio, não fales de nós


ao senhor rei que é o mar:


ir falar a certa gente


é o mesmo que não falar.


Fala connosco, se és nosso,


revela o ovo da paz,


pondo-nos dentro da alma


as cidades de luar,


o mel dos favos da aurora,


laranjas do laranjal,


a doce força dos robles


cheios de sol e de sal,


que por mais que o vento vente,


resistem ao vendaval.


 


In "Os Homens Cantam a Nordeste"


Editora Nova Realidade


 


António Cabral


(1931-2007)

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