CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Correia de Oliveira... Poeta do Séc. XX

CYPRESTES


 


Extaticos Cyprestes, meditando


Na Terra da Verdade, em melancolicos


Jardins da Morte em flor, canteiro de almas:


 


Cyprestes dos humildes cemiterios,


Que fundos, remotissimos segredos


Da Vida saberão vossas raizes?


 


O que dirão, á aragem, vossos ramos


Longamente acenando e murmurando?


 


Cyprestes dos humildes cemitérios,


Que segredos sabeis da Morte obscura?


 


A Morte é vossa vida, – pois na Morte


Entrelaçaes, no chão, as fundas, ávidas


Raizes; e, no espaço, ergueis a rama,


Tão verde que a não queima o proprio inverno;


E onde rebrilha a luz do sol; e as aves


Tecem os ninhos que são como flores


A abrir nas vivas pétalas das azas,


Nos cantos que se exalam como aromas…


 


Cyprestes dos humildes cemiterios,


Que segredos sabeis da Morte obscura?


 


Á clara luz do sol, ou, mais ainda,


Á dubia luz da Lua misteriosa


Desenhaes, pelo chão, as vossa sombras,


Como signaes de magico alphabeto,


– Onde, talvez, os olhos dos Espiritos


Soletrem as palavras cabalísticas


Reveladoras de intimos anceios…


 


Cyprestes dos humildes cemiterios,


Que segredos sabeis da Morte obscura?


 


No vosso sangue vegetal – as seivas –


Transfunde-se e transforma-se a energia


Do sangue do Homem, mesmo da sua alma:


Pois que, no chão em que viveis, lá fundo,


A Morte lhe trabalha o inerte corpo,


– Tornando-o á Terra, como torna aos mares


A nevoa que se ergueu ao céu e aos ventos:


E novamente ha de voltar ás ondas


Nas lagrimas das chuvas e do orvalho…


 


Cyprestes dos humildes cemiterios,


Que segredos sabeis da Morte obscura?


 


Ouvis. E, em vagos gestos, em longinqua


Mas vivida expressão de pensamento,


Vós conversaes comigo, á luz da Lua…


 


E as vossas longas falas silenciosas,


Que saudades me deixam! Que lembrança


De claras horas de bellêsa, mortas


Dentro em minha alma, Cemiterio de almas!


Que instinctivo, nostalgico desejo


De regressar á terra, á morte: – á Vida…


 


Ai quem me dera a mim! ai quem me dera


Adormecer no cemiterio rustico 


Da minh aldeia, entre montanhas, de onde


Tristesas e destinos me desterram:


 


E, desfeito o meu corpo nesse palmo


De terra onde já tenho amados Mortos,


– Velho Cypreste, que lá vive ha tanto,


Talvez, com suas ávidas raizes,


Sorvesse alguma coisa do meu corpo,


Com elle, alguma coisa da minha alma:


 


E talvez, no seu tronco e sua rama,


(Como num verde e alegre Paraiso,


Num Céu de esquecimento e de renúncia)


De novo eu me encontrasse em companhia


De esses que tanto amei, e já morreram…


 


E alli vivesse, emfim, na pura e candida,


Alegre santidade primitiva:


– Não Homem, não! mas Arvore da terra,


Em canticos de luz e de verdura,


Cheio de paz e simples naturêsa.


 


 


Lisboa.


 


 


In Revista "A Águia"


Nº. 2 – 1ª Série – Ano I – 15 de Dezembro de 1910


 


António Corrêa de Oliveira


1878 – 1960


 


 


 


(Mantém a grafia original)


 

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