CYPRESTES
Extaticos Cyprestes, meditando
Na Terra da Verdade, em melancolicos
Jardins da Morte em flor, canteiro de almas:
Cyprestes dos humildes cemiterios,
Que fundos, remotissimos segredos
Da Vida saberão vossas raizes?
O que dirão, á aragem, vossos ramos
Longamente acenando e murmurando?
Cyprestes dos humildes cemitérios,
Que segredos sabeis da Morte obscura?
A Morte é vossa vida, – pois na Morte
Entrelaçaes, no chão, as fundas, ávidas
Raizes; e, no espaço, ergueis a rama,
Tão verde que a não queima o proprio inverno;
E onde rebrilha a luz do sol; e as aves
Tecem os ninhos que são como flores
A abrir nas vivas pétalas das azas,
Nos cantos que se exalam como aromas…
Cyprestes dos humildes cemiterios,
Que segredos sabeis da Morte obscura?
Á clara luz do sol, ou, mais ainda,
Á dubia luz da Lua misteriosa
Desenhaes, pelo chão, as vossa sombras,
Como signaes de magico alphabeto,
– Onde, talvez, os olhos dos Espiritos
Soletrem as palavras cabalísticas
Reveladoras de intimos anceios…
Cyprestes dos humildes cemiterios,
Que segredos sabeis da Morte obscura?
No vosso sangue vegetal – as seivas –
Transfunde-se e transforma-se a energia
Do sangue do Homem, mesmo da sua alma:
Pois que, no chão em que viveis, lá fundo,
A Morte lhe trabalha o inerte corpo,
– Tornando-o á Terra, como torna aos mares
A nevoa que se ergueu ao céu e aos ventos:
E novamente ha de voltar ás ondas
Nas lagrimas das chuvas e do orvalho…
Cyprestes dos humildes cemiterios,
Que segredos sabeis da Morte obscura?
Ouvis. E, em vagos gestos, em longinqua
Mas vivida expressão de pensamento,
Vós conversaes comigo, á luz da Lua…
E as vossas longas falas silenciosas,
Que saudades me deixam! Que lembrança
De claras horas de bellêsa, mortas
Dentro em minha alma, Cemiterio de almas!
Que instinctivo, nostalgico desejo
De regressar á terra, á morte: – á Vida…
Ai quem me dera a mim! ai quem me dera
Adormecer no cemiterio rustico
Da minh aldeia, entre montanhas, de onde
Tristesas e destinos me desterram:
E, desfeito o meu corpo nesse palmo
De terra onde já tenho amados Mortos,
– Velho Cypreste, que lá vive ha tanto,
Talvez, com suas ávidas raizes,
Sorvesse alguma coisa do meu corpo,
Com elle, alguma coisa da minha alma:
E talvez, no seu tronco e sua rama,
(Como num verde e alegre Paraiso,
Num Céu de esquecimento e de renúncia)
De novo eu me encontrasse em companhia
De esses que tanto amei, e já morreram…
E alli vivesse, emfim, na pura e candida,
Alegre santidade primitiva:
– Não Homem, não! mas Arvore da terra,
Em canticos de luz e de verdura,
Cheio de paz e simples naturêsa.
Lisboa.
In Revista "A Águia"
Nº. 2 – 1ª Série – Ano I – 15 de Dezembro de 1910
António Corrêa de Oliveira
1878 – 1960
(Mantém a grafia original)