CÁ TE ESPERO...

Recordando... António de Macedo Papança (Conde de Monsarás)

AS ARCAS DE MONTEMOR


 


Entre escombros, na rudeza


De vetusta fortaleza,


Batidas do vento agreste,


Empedernidas, cerradas,


Há duas arcas, pejadas


Uma de oiro, outra de peste.


 


Ninguém sabe ao certo qual


Das duas arcas encerra


O fecundo manancial


Que fartará de oiro a terra


Mesquinha de Portugal,


 


Ou qual, se mão imprudente


Lhe erguer a tampa funérea,


Vomitará de repente


A fome, a febre, a miséria,


Que matarão toda a gente!


 


E nestas perplexidades,


E eternas hesitações,


Têm decorrido as idades,


Têm passado as gerações;


Nas guerras devastadoras


Nas lutas brutais e ardentes


Entre as nações invasoras


E as povoações resistentes,


 


Nunca Romanos nem Godos,


Nem Árabes nem Cristãos,


Duros na alma e nos modos,


Rudes no aspecto e no trato,


Chegaram ao desacato


De lhes tocar pelas mãos...


 


Sempre que o povo faminto,


Maltrapilho e miserando,


Fosse ele Cristão ou Moiro,


Entrou no tosco recinto


Para salvar-se arrombando


A arca pejada de oiro,


 


Quedou-se, os braços erguidos,


O olhar atónito e errante,


Sem atinar de que lado


Vinha morrer-lhe aos ouvidos


Uma voz de agonizante,


Entre ameaças e gemidos:


«Ó povo de Montemor,


Se estás mal, se és desgraçado,


Suspende, toma cuidado,


Que podes ficar pior!»


 


E nestas perplexidades,


E eternas hesitações,


Hão-de passar as idades,


Suceder-se as gerações,


E continuar na rudeza


Da vetusta fortaleza,


Batidas do vento agreste,


Empedernidas, cerradas,


As duas arcas, pejadas


Uma de oiro, outra de peste.


 


In “Leituras (Segundo Tomo)”


Para o Ensino Técnico


1ª Edição - Livro Único


 


António de Macedo Papança


Conde de Monsarás


(1853-1913)

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