CÁ TE ESPERO...

Recordando... António de Sousa

CANTATA DO MAU MARINHEIRO


 


Em Calicut, uma vez,


o grande Vasco da Gama


pôs-me a ferros no porão.


Não por pena de traição


mas por eu passar na cama


trinta dias, cada mês.


 


Se retroava a bombarda


para acossar a moirisma


– a cambulhada casmurra -


eu dedilhava a bandurra,


recatando a minha cisma


ao anjo da minha guarda.


 


Quando o Santelmo chispava,


nos tops de popa a proa,


agoiros de calmaria,


eu ao bailique pedia


o caminho de Lisboa


e o corpo da minha escrava.


 


Quando a água escasseou,


a bolacha criou bicho


e o vinho já ia azedo,


eu nunca tremi de medo:


fiquei-me em santo de nicho


que a si mesmo se salvou.


 


Mas se o mar fazia espuma,


o vento cuspia pragas


e a nau parecia um trambolho,


já, do sono, abria um olho,


piscava-o de manso às vagas


– Que, enfim, a vida é só uma!


 


(Sei que a morte me não quer


enquanto andar embarcado,


só pecando em pensamento.


Porém sou primo do vento


e no seu corpo salgado


o mar é minha mulher...)


 


Não fui herói como os mais,


mas o almirante do rei


acabou por perdoar.


É que eu tinha de ficar


só nos trabalhos que sei


p`ra lhe dar estes sinais!


 


(A nau voltou a Belém


e eu, felizmente, estou bem!)


 


 


In “Jangada”


Coimbra Editor


 


António de Sousa


1898 – 1981  


 

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