CÁ TE ESPERO...

Recordando... António de Sousa

BREVE POEMA ÉPICO


 


Sete leões e o profeta no meio,


com óculos, de preto, guarda chuva


e uma saudade desbotada


no bolso do coração.


 


O céu triste e calado como os mortos;


as colinas à espera de pintor


e o rio como um doido a bater palmas


e a babar-se nas fragas.


 


Sete leões da terra de ninguém


todos goelas  força e sede viva.


O profeta no meio, tão profeta


que o medo lhe parecia Anjo da Guarda.


 


Magro, pois a comida de palavras


nunca foi coisa que matasse a fome...


corpo talhado a jeito de baínha


ao espírito - uma espada feita de ar.


 


Sete leões como os sete pecados,


ali, inteiros, no Jardim de Deus;


as portas milenárias em pedaços


e o Todo-Alma a estuar de fé.


 


A cada uivo – um murmuro versículo;


para o raspar das unhas as mãos juntas


e aos saltos decisivos como raios,


um - Satan, vade retro! e o guarda-chuva!


 


Depois... tudo acabou na digestão


do profeta, do rio e até do céu!


Mas um poeta virá com outros sóis


para ver nascer flores dos cadáveres dos leões.


 


Coimbra – 1943


 


In “Sete Luas”


Editorial Inquérito Lda.


 


António de Sousa


1898 – 1981


 

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