CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Feijó

CABELLOS BRANCOS


 


Não repares na cor dos meus cabellos


Sem ler primeiro Anacreonte;


Verás que os sonhos juvenis, mais bellos,


Tambem se evolam d'enrugada fronte.


 


O espirito do Poeta é sempre moço;


O Coração nunca envelhece...


Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,


E tudo nelle se illumina e aquece.


 


Deusas d'eterna graça adolescente,


Jamais as Musas desdenharam


Da luz que treme incendiando o poente,


Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.


 


Fina e fragil vergontea melindrosa,


Que foi na ceifa abandonada,


Ruth, apesar de moça e de formosa,


Nos braços de Booz dorme encantada.


 


Quantas flores d'inédita fragrancia


Em mãos provectas vão abrindo...


Abisag, ao sair quasi da infancia,


No leito de David entrou sorrindo.


 


E d'esse beijo, inverno e primavera,


D'esse connubio, oh maravilha!


Como se a ruina fecundasse a hera,


Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.


 


Esculpturaes patricias, d'olhos ledos,


Quem as lembrara, se deixassem


Que mãos obscuras, mercenários dedos,


A velhice d'Horacio engrinaldassem?


 


Quantos nomes illustres! quantos casos!


Mas que direi mais eloquente?


Não ha dias tão pallidos, e occasos


Como explosões d'uma cratera ardente?


 


Não repares na côr dos meus cabellos;


A branda luz que nelles arde,


Como o poente, das nuvens faz castellos,


Tinge d'alva o crepusculo da tarde...


 


Muita vez os cabellos embranquecem


Na dor d'horriveis soffrimentos...


Não são os annos que nos envelhecem;


«São certas horas más, certos momentos...»


 


 


In “Sol de Inverno”


Livrarias Aillaud E Bertrand – 1922


 


António Feijó


1859 – 1917


 


MANTEM A GRAFIA ORIGINAL


 


 

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