CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Feijó

CISNE BRANCO


 


Cisne branco, esquecido a sonhar no alto Norte,


Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro,


Ergue os olhos ao céu, enublados de morte,


Mas o sol já não vem romper-lhe o cativeiro.


 


O gelo, no lençol todo imóvel das ondas,


Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas,


Deslumbra-lhe um momento as pupilas redondas,


Dá-lhe a ilusão do sol, mas não lhe solta as asas.


 


Vê que o torpor do frio o invade lentamente;


Debate-se, procura o cárcere romper;


Mas a asa é de arminho, o gelo é resistente:


Tem as penas em sangue e sente-se morrer.


 


Então põe-se a cantar sem que ninguém o escute;


Solta gritos de dor em que lhe foge a vida;


Mas essa dor, se ao longe um eco a repercute,


Parece uma canção no silêncio perdida…


 


Melodia que a voz da Saudade acompanha,


Amarga e triste como o exílio onde agoniza,


Longe do claro sol que outras paisagens banha,


Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.


 


Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas:


– Tardes ocidentais de sanguínea e laranja,


Noites de claro céu, como um mar cheio de ilhas,


Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!


 


Mas ao longe, à distância onde a leva a Saudade,


Tão esbatida vai essa triste canção,


Que não desperta já comoção nem piedade:


Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.


 


E o Cisne, abandonado ao seu destino, expira,


Alucinado e só, sob o silêncio agreste,


Pensando que no azul, como um mar de safira,


Os astros a luzir são a geada celeste…


 


In “Sol de Inverno”


INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda


 


António Feijó


(1859-1917)

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