CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Feijó

O LIVRO DA VIDA


 


Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia...


– Lia o «Livro da Vida»,– herança inesperada,


Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria


Ao primeiro clarão da primeira alvorada.


 


Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto,


Todo o humano tropel num clamor ululando,


Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,


Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.


 


Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos;


E elle sempre, – inclinada a dorida cabeça, –


A ler e a meditar postulados eternos,


Sem um fanal que o seu espirito esclareça!


 


Cada pagina abrange um estádio da Vida,


Cujo eterno segredo e alcance transcendente


Elle tenta arrancar da folha percorrida,


Como de mina obscura a pedra refulgente.


 


Mas o tempo caminha; os annos vão correndo;


Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão...


E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo!


E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.


 


Nesse eterno scismar, nada vê, nada escuta:


Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos,


Nem o humano soffrer, que outras almas enluta,


Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos!


 


Só depois de voltada a folha derradeira,


Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,


É que o Sábio entreviu, como numa clareira,


A luz que illuminou todo o caminho andado...


 


Juventude, manhãs d'Abril, boccas floridas,


Amor, vozes do Lar, éstos do Sentimento,


– Tudo viu num relance em imagens perdidas,


Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.


 


Mas então, lamentando o seu esteril zêlo,


Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,


Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,


Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou...


 


(mantém a grafia original)


 


In “Sol de Inverno”   


Editora Aillaud & Bertrand


 


António Feijó


(1859-1917)

0