CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Feliciano de Castilho

A FONTE DOS AMORES EM COIMBRA


 


Fonte, mais pura que o lustroso vidro,


mais que o vivo cristal que as rochas veste,


ó de inocentes míseros amores


       outr'ora testemunha;


 


Com que verso, que iguale o que mereces,


cantarei dignamente as águas tuas,


e a relva que te borda a fresca terra,


       e as flores que a matizam?


 


Em que verso melhor folgas que entoe


digno louvor às árvores anosas


que te cercam benéficas, lançando


       amiga sombra aos vates?


 


Se de outras cordas minha lira ornasse


de Maia o filho, o alígero Mercúrio,


se novos sons em minha voz criassem


       as ondas de Aganipe.


 


Então celebraria os nobres seixos,


onde o sangue de Inês o tempo adora,


onde o sangue de Inês inda hoje arranca


       o pranto a Amor e às ninfas.


 


Os zéfiros e as auras n’ este sítio


sem que os ais da infeliz jamais esqueçam


tristes movendo a trémula folhagem


       saudade doce avivam


 


As águas luas, e as vizinhas letras,


sobre as quais cada dia Amor suspira,


o sangue inda recente, os velhos troncos,


       tudo te faz formosa.


 


Corre, ó Fonte das Lágrimas; ah! sempre


aos ternos corações de amantes tristes


corras grata e suave, e tenhas deles


                      os cultos que te sagro!


 


In “Encantada Coimbra”


Adosinda Providência Torgal, Madalena Torgal Ferreira


Publicações Dom Quixote, 2003


 


António Feliciano de Castilho


(1800-1875)

0