CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Franco Alexandre

OLHA-ME AGORA…


 


Olha-me agora, que me tens vencido


e sou nas tuas mãos pobre veludo,


de pele morta e rota mal vestido


e, de sábio que sou, já tartamudo.


Fala-me agora, que não tenho boca.


e sou na tua pele mero ouvido,


diz-me palavras soltas sem sentido


ou pede-me por graça o consentido.


Olha-me só para que veja como


tão claro e fundo olhar me tem mantido


na solidão sem nome deste pranto;


ou escreve em mim com hálito de lume


para que seja eu a enrodilhada chama


que se esquece de si e sonha o fumo.


 


In “Duende”


Assírio & Alvim


 


António Franco Alexandre


(N.1944)

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