CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gancho

ABERTURA


 


Eu abria o rádio


eu abria o aparelho


era uma flor branca que eu abria


de sopro


eu soprava e eu abria a flor


A flor tocava música com as várias mãos


das pétalas


A flor tocava uma simbolização dum tempo


caído podre de espera de cor branca


O tempo espera-se em pintar-se


de branco


para cegar uma cor


mas a minha flor abria-se de


pétalas


e as várias mãos escreviam um


piano por cima de teclas grãos vários


seguidos uns aos outros.


Era assim uma harmonia


entre flor


tempo a querer-se de cor branca em cegar


era assim umas teclas cantarem filhos de grãos


por dentro dos grãos mesmos


unidos que eram em dimensão de lado


era assim um cantar-me o tempo todo


não era assim um cantar-me o tempo todo


era assim um pairar-me


o tempo todo em Nijinsky


o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro


quando eu tinha aberta a cabeça que imagino


da música


Abria a pétala favorita do harém


onde no centro um sultão da flor


no centro que era o amarelo da flor


abria a pétala favorita da flor


e então


e era então que me soava dentro da manhã


do quarto


uma música desfibrada de tempo serôdio


como se tudo me fosse em longe


como se a música levasse longe


o céu.


 


In “O Ar da Manhã”


Assírio & Alvim


 


António Gancho


(1940-2006)

0