CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gancho

PRISÃO


 


Tu tinhas uma nascença que era uma prisão


uma certeza de estar concreto e unido


com a matéria de pedra


Que era uma tua sedimentação de vida


uma tua construção de movimentos a sair das grades


Era rico em Sol o teu peito de grades


concreto e unido sedimentavas dias de espera


duma letra que te abrisse os instintos para


falares de nada.


Era uma certeza de tu estares unido como uma raiz de mesa própria


uma certeza de estares virado para um


nascente de inconcretidade material


tinhas uma mão de peça de artilharia


de disparares para fora o conteúdo dos dias com


raiz de mesa própria


Eras um sol a nascer-te no sítio da grade


onde se punham ramos de quinta-feira de campo.


Tinhas uma natureza de estares sentado


Sobre uma cadeira que era a tua


esperança de estares unido com a nascença do movimento.


Tinhas um cantarem-te os cabelos no dia de dentro


um ser-te uma mágica a fusão de


olhar com a dimensão de esperança fora.


Eras-te igual à matéria da tua animação de selva


íntima


igual ao cantar-te serôdio o tempo de pendular


na cabeça


Conhecias uma esperança de cortares os cabelos com uma


navalha de vento


mas era tua inspiração de um modo interior de vida.


Criavas um espaço aberto na clareira duma grade


que era um espaço celeste a cobrir de grego o cimento


Tu tinhas uma invenção de disparares saúde de dias


por fora da mão


Tu tinhas uma sensação absoluta de estares aberto com o espaço


duma grade


tinhas um ser-te grave o olhar para fora do dia


inaugurado de verde


Que se te abrisse a letra


era desejo de teres fonemas no nada de uma mão aberta


sem um rogar de branco.


O sol aberto em sentido de alusão a uma palavra de ti


era nada de o poente estar no sentido inverso.


 


In “O Ar da Manhã”


Assírio & Alvim


 


António Gancho


(1940-2006)

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