CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gancho

LITERATURA


 


De literalmente aturar


atura a minha literatura


estar entre toda a Literatura que há até hoje e houve


e literatura nenhuma.


Se é surrealista ou não em suma


não sei responder.


Se ela é existencialista


por exemplo que sei eu


entre os franceses por exemplo


dos franceses


André Frénaud


e os esquizofrénicos de Paris


do frio


o frio


não me deixa se calhar ser.


Que eu tanto canto


a existência do frio como do calor


a existência do Verão e do Sol


como da chuva e do Inverno


eu canto qualquer coisa


eterno provedor da minha república


só interior de cantar.


Senão, ó bela, é instaurarem-me


um processo que não dá para o petróleo


cole-o o tempo ao ramo


o amo ao cavalo


que exprimo e falo de mim primeiro


primeiro de mim


depois e só depois dos outros sim


e entre os dois enfim


ganhar qualquer coisinha


para a espinha que dói muito a escrever


senão é ver.


Beber umas coisas


e se ela noutra arte pousar


e cá isso de surrealista ou existencialista


não o sei ainda que a mim não mo disseram.


Só considerar isso das duas coisas.


À parte isso falo de existir


ganhar uns carcanhóis


com a arte de escribir


comer uns caracóis com o dinheiro arranjado


fumar uns cigarróis


beber cá umas coisas


e de artes só há duas.


Sub-reptilmente


ou existencialmente ainda continuar.


Existentivamente.


Comer.


Beber.


Escrever.


Mais umas mulheres nuas.


 


In “O Ar da Manhã”


Assírio & Alvim


 


António Gancho


(1940-2006)

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