CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gancho

ARTÉRIA, TU TENS RAZÃO


 


A única coisa que eu aprendi meu Deus


a sofrer a desilusão duma passagem de rua


ficar com o lado esquerdo a ajudar a falar


mas a única coisa que eu aprendi


 


Que um bocado de vidro inundasse de luz uma artéria


eu era um bocado de vidro que não inundasse de luz


artéria nenhuma


era uma desilusão a olhar para mim


e dizer movimento de rua


é assim movimento de rua


aí está nós cá estamos nós somos tal e qual


uma desilusão em passagem.


 


Tinha era ainda mais que tudo isso


um inchaço dum vidro em bocado


espetado em cima de pedra.


 


Havia um estendal de desilusão a devorar-me


todo com os olhos


eu era uma continuação do meu ser.


Onde um simulacro estava a vantagem


de uma desilusão.


Eu não


eu cá.


Que um cá estamos considerasse ou não


eu não tinha nada com isso


 


Eu fum, eu...


Ah,


Havia é que era eu cá estamos nada disso


eu cá não eu nada eu não tinha eu não tenho


tu quê


nós consideramos.


Onde punha fum


tudo por dentro era duma urania


tudo por dentro era duma constipação palpável


pelo sentido da pedra e do bocado de vidro.


Não eu cá não vou.


 


Quem olha descontenta.


 


In “O Ar da Manhã”


Assírio & Alvim


 


António Gancho


(1940-2006)

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